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“O nosso vírus principal, em Cabo Delgado, é a guerra”

O Bispo Luís Francisco Lisboa começou por dizer, na sua intervenção no programa Pontos nos ii, que a província de Cabo Delgado enfrenta sérios problemas. Depois do Ciclone Kenneth, ano passado, os ataques dos terroristas estão a gerar números expressivos de deslocados, incluindo crianças que se perdem dos pais ao fugirem das suas zonas de residência. Por isso mesmo, adianta Luís Francisco Lisboa, há naquela província uma crise humanitária, na qual o medo é algo constante.

Num contexto de insegurança, o Bispo de Pemba defende que conseguir alimentos e abrigo para tanta gente que foge dos ataques é a grande dificuldade enfrentada. Entre os que precisam de ajuda, com efeito, encontram-se milhares de pessoas que saíram às pressas das suas casas, levando consigo apenas algumas panelas e peças de roupas.

Diante deste cenário que abala Cabo Delgado, Luís Fernando Lisboa esclarece: “o nosso vírus principal, aqui na província, é a guerra. A COVID-19 fica em segundo plano”. Assim é porque os centros de acolhimento, por exemplo, de Metuge, perto de Pemba, estão cheios de gente que não têm para onde ir. O mesmo acontece com as residências particulares, nas quais os deslocados são recebidos por algumas famílias benevolentes.

Na estreia do programa Pontos nos ii, da Stv, ontem à noite, o Bispo de Pemba realçou que o povo de Cabo Delgado tem dado uma lição de solidariedade. Entretanto, os deslocados precisam de muito mais, do estrangeiro e dos moçambicanos de todas as zonas do país. “Nós precisamos de solidariedade concreta, que nos ajude em comida e apoio material, porque, não vou dizer que estamos desesperados, mas estamos muito preocupados”.

Neste momento, a solidariedade tem chegado, essencialmente, aos deslocados que se encontram na cidade de Pemba ou nos distritos vizinhos, pois para o norte da província não há passagem e tão-pouco segurança. E há muita falta de informação. Os poucos que se encontram nas zonas afectadas pelos ataques ou não têm comunicação por telemóvel ou ficaram sem electricidade.

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Mesmo diante de tantas dificuldades, admitiu o Bispo de Pemba, nos últimos tempos foram reforçadas as investidas das Forcas de Defesa e Segurança. “Tem havido esforço das Forças de Defesa nacionais, só não sei se é suficiente, mas tem havido…”.

Contudo, com o aumento das iniciativas das Forças de Defesa e Segurança, em Cabo Delgado, surge outro problema: a reinvenção dos terroristas. Ao contrário do que vinha acontecendo até há pouco tempo, agora os terroristas mudaram de estratégia. Para dificultar a defesa do território nacional, atacam, em pequenos grupos, duas ou mais aldeias em simultâneo.  

Ontem, o programa Pontos nos ii teve como convidado de estúdio João Feijó. Para o académico, com a intensificação dos ataques os terroristas estão a fazer uma demonstração de força. “Eles chegaram a ocupar Mocímboa da Praia por dois dias, sem grande resistência, e, aparentemente, saíram de lá por vontade própria”.

João Feijó acredita que há uma pressão para os terroristas estarem mais próximo da capital Pemba, o que obrigou as Forcas de Defesa e Segurança a recorreram a forças privadas de mercenários, que, com apoio aéreo, conseguiram expulsar os terroristas mais para o norte da província. O académico entende que o episódio de Macomia prova que a demonstração em Cabo Delgado está muito tensa. “Este é um conflito com muitos ingredientes, com discursos islâmicos radicalistas e contradições locais que envolvem recursos cobiçados e tensões étnicas históricas mal resolvidas”.

Feijó acredita que o terrorismo pretende criar um braço em Cabo Delgado, o que pode ser facilitado se se considerar que é normal haver grupos militares nacionais que não estejam interessados em terminar o conflito. Assim, prevê, o cenário pode se prolongar por muito tempo.

De acordo com o académico, alguns sequestrados que escaparam dos terroristas alegam que os líderes são pessoas que falam swahili com sotaque do Quénia, mas também há pessoas locais e até do Sul de Moçambique envolvidas.

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